Guia Estratégico para Proprietários
Valor, Estratégia e Decisões antes de colocar um Imóvel à Venda
Introdução
Vender um imóvel é uma das decisões financeiras mais relevantes para qualquer proprietário. Apesar disso, um grande número de vendas começa com uma decisão talvez precipitada: Anunciar e só depois ir percebendo os desafios que se colocam desde o início.
Se a sua estratégia e perceção desses desafios começar antes mesmo de anunciar, estará mais próximo do sucesso.
A compreensão do valor real do imóvel, das regras do mercado e dos fatores técnicos que podem condicionar o preço final, são essenciais para que consiga controlar o processo do início ao fim e saiba exatamente com o que pode contar.
Este guia reúne o que considero serem os princípios fundamentais que ajudam proprietários a tomar decisões mais informadas antes de colocar um imóvel à venda.
A decisão mais importante acontece antes do anúncio
Fala-se muito em estratégias de venda, mas aquilo que normalmente se evidencia como estratégia – fotografias, vídeos, anúncios nos portais, divulgação no geral – no caso de um serviço profissional, esses elementos são apenas o padrão mínimo esperado.
A verdadeira estratégia começa antes: na definição correta do valor e do posicionamento do imóvel no mercado.
Quando um imóvel entra no mercado com um posicionamento errado, todo o processo seguinte perde eficácia.
O primeiro passo estratégico: uma avaliação independente
Antes de vender, é essencial perceber com rigor:
- Qual é o valor real de mercado
- Quais são as condicionantes técnicas
- Como o imóvel será visto numa avaliação bancária
Num mercado em que a maioria das compras depende de financiamento, a avaliação bancária torna-se muitas vezes o verdadeiro limite do negócio.
Uma avaliação independente permite:
- Validar expectativas
- Evitar decisões baseadas apenas em anúncios
- Antecipar possíveis problemas no processo de venda
Nem todos os valores são iguais
Um dos maiores fatores de confusão no mercado imobiliário é a utilização indistinta de diferentes tipos de valor.
Valor de mercado
Valor estimado tecnicamente com base em dados comparáveis e condições reais de mercado. É o preço estimado pelo qual um ativo ou passivo seria trocado, à data da avaliação, entre um comprador e um vendedor motivados e informados, numa transação em condições normais de mercado, após um período de comercialização adequado, em que ambas as partes tenham agido de forma esclarecida, prudente e sem coação.”
Valor de oferta
Preço pedido. É o preço de atração. Aquele onde vai tentar maximizar o seu resultado liquido, mas que inclui implicitamente, mais que o valor do imóvel, como:
- Margem de negociação
- Estratégia comercial
- Perceção do proprietário
- Teste de mercado
- Custos de acesso ao mercado
Valor de transação
Valor de fecho do negócio, efetivamente escriturado, partindo do preço de oferta inicial. Conceptualmente pode aproximar-se do Valor de Mercado.
Valor líquido do vendedor
Valor realizado após conclusão de negócio e livres de custos.
Confundir estes valores leva frequentemente a decisões erradas na definição de preço. Será determinante para o sucesso do seu negócio, conhecer antecipadamente todas as várias vertentes de valor do mercado, compreender todas as possíveis condicionantes, inclusive do perfil de comprador, perceber de forma fundamentada, que posicionamento pode potenciar o resultado pretendido.
Acredito que o sucesso começa com a decisão certa, e que só uma base técnica fundamentada, pode sustentar uma perspetiva comercial positiva, percecionada pelo mercado como realista, credível e atrativa – permitindo alcançar o melhor negócio possível no menor tempo, sem que isso signifique uma venda apressada ou abaixo do valor justo.
Porque os preços anunciados podem induzir em erro
Os portais imobiliários mostram preços pedidos, não valores de venda.
Como já referido, esses preços podem refletir muitos outros aspetos e que não têm que ver diretamente com o valor do ativo que se está a transacionar.
Comparar diretamente com esses preços pode levar a distorções importantes de preço real dos imóveis, conduzindo potencialmente a vender abaixo do que poderia, ou a prolongar, com efeitos negativos, o tempo de exposição sem vender.
A realidade do mercado: mediação vs venda direta
Seguramente consegue verificar que o peso da oferta particular tende a ser residual, e que por isso acaba afetada e condicionada pela oferta profissional.
Isto cria duas dinâmicas diferentes:
Imóveis mediados
- Têm maior exposição de mercado
- Incluem uma estratégia comercial e marketing profissional com uma estrutura de custos implicita
- Integram uma tendência de preços de oferta que reflete o contexto do canal de venda, muitas vezes inflacionado
Venda direta
- Tem factualmente menor alcance de mercado
- Tem maior dependência da assertividade da estratégia escolhida e do preço inicial
- Tem tendência a procurar equiparar-se à oferta por canal de venda profissional, e por isso maior sensibilidade a erros de posicionamento
Objetivamente, para um vendedor particular, será um risco tentar nivelar preços pedidos com os dos imóveis mediados, até porque desvirtua a sua abordagem – Em igualdade de preço com o mercado profissional, qual a vantagem para um potencial comprador?
Um comprador atento e informado, tenderá a utilizar isso como vantagem negocial – Uma das grandes vantagens que um comprador pode ter numa abordagem a um vendedor particular, será a de tentar concretizar um negócio a um preço abaixo do que está a ser pedido no mercado que é maioritariamente profissionalizado – e há duas questões que se colocam – até que ponto vender mais barato pode ser uma vantagem clara para o vendedor, e até quanto mais barato pode ser ainda uma vantagem para o vendedor?
Vender diretamente, é claro que é possível, mas sem limites claros de valor, o conseguir vender ou não, deixa de ser a questão, mas sim a que custo o conseguirá fazer.
Um problema pouco falado – as áreas dos imóveis
Um dos fatores que mais distorce comparações de mercado é a diferença entre áreas reais, registadas e anunciadas.
Nos portais imobiliários é comum encontrar: área bruta privativa, área bruta de construção, área total, área útil, área com anexos incluídos, áreas estimadas. Quase nunca estas métricas são comparáveis.
Exemplos comuns de distorção
Um T2 pode aparecer anunciado com 85 m² úteis, 100 m² brutos ou 120 m² com varandas e estacionamento. Outro imóvel semelhante pode estar anunciado apenas com área privativa de 90 m².
Quando se comparam preços por m² sem normalizar as áreas, surgem erros significativos.
Como as diferenças de área criam erros de “pricing”
Quando um proprietário analisa o mercado com base em dados distorcidos pode concluir que: "Os imóveis nesta zona estão à venda por cerca de X €/m²."
Mas na realidade: alguns têm áreas inflacionadas, outros incluem áreas dependentes, outros utilizam áreas diferentes das registadas.
O resultado frequente é: preço inicial irrealista, perda de interesse inicial do mercado, redução progressiva de preço e venda final eventualmente abaixo do potencial, se tivesse iniciado com outra estratégia.
Porque avaliações e estudos de mercado divergem
As avaliações imobiliárias profissionais assentam em metodologias técnicas e critérios de comparação rigorosos. Os elementos de mercado são objeto de normalização e homogeneização, as áreas são analisadas de acordo com a sua natureza, registo e mensuração, e são igualmente considerados aspetos documentais, legais, urbanísticos e físicos do imóvel, verificados através da documentação disponível e da visita ao local.
Já os estudos de mercado baseiam-se, frequentemente, em informação proveniente de anúncios e ofertas disponíveis ao público, que nem sempre refletem as condições efetivas de transação ou a realidade jurídica e física dos imóveis. É igualmente comum a utilização de parâmetros não uniformizados, a mistura de áreas com diferentes utilizações e a consideração de características ou potencialidades cuja conformidade nem sempre é verificada.
Embora ambos procurem compreender o comportamento do mercado, partem de pressupostos e níveis de análise distintos. Consequentemente, diferenças metodológicas, de fontes de informação e de critérios comparativos podem conduzir a resultados significativamente diferentes para o mesmo imóvel.
Resultado: Dois estudos sobre o mesmo imóvel podem chegar a conclusões muito distintas. A questão relevante não é apenas qual o valor obtido, mas sim qual o valor é tecnicamente mais defensável e melhor sustentado perante terceiros. Quanto mais objetiva, fundamentada e credível for a sua proposta de valor ou de preço, maior será a sua capacidade negocial e menor a necessidade de justificar ou rever as suas expectativas durante o processo de venda.
O impacto do posicionamento inicial
Os primeiros 30 a 45 dias de exposição no mercado são normalmente os mais importantes. É neste período que surgem os compradores mais qualificados e interessados.
Quando o imóvel entra no mercado com preço adequado: atrai mais visitas, gera maior concorrência, fortalece o poder negocial do vendedor.
Quando entra com preço errado: acumula tempo em mercado, cria uma imagem depreciativa, gera menos visitas e menos interesse, perde visibilidade com o tempo, leva a ajuste de preço o que coloca logo um alerta, e acaba frequentemente por vender consideravelmente abaixo da expectativa inicial, quando não abaixo do potencial com uma abordagem inicial distinta.
Porque algumas casas não se vendem
Existem 3 motivos principais que, de forma recorrente, explicam porque determinadas casas não são vendidas:
- Preço: Valor desalinhado com a realidade do mercado, o que resulta de uma estratégia baseada em pressupostos frágeis e expectativas irrealistas.
- Promoção: Exposição, promoção e alcance indevidamente trabalhados.
- Características: Características especiais que geram interpretação errada sob a noção de valor, e que podem não estar devidamente repercutidas no preço pedido.
Nem todas as características de um imóvel têm o mesmo impacto no seu valor ou na sua capacidade de venda. Aquilo que o proprietário valoriza, pela sua experiência pessoal ou ligação ao imóvel, nem sempre corresponde ao que o mercado reconhece e está efetivamente disposto a pagar, ou pelo menos na mesma medida. A relação emocional criada com uma casa ao longo de vários anos pode, de forma perfeitamente natural, dificultar uma perspetiva mais distanciada e objetiva sobre o seu posicionamento e valor de mercado.
Existe uma diferença importante entre aquilo que, pela ligação afetiva ao nosso imóvel, apreciamos, acreditamos que acrescenta valor ou que consideramos determinante para a venda, e aquilo que um potencial comprador, sem essa relação emocional, efetivamente reconhece e está disposto a valorizar. Confundir estas duas perspetivas conduz frequentemente a expectativas de preço desajustadas, períodos de comercialização mais prolongados e uma maior vulnerabilidade a negociações desfavoráveis.
Conclusão
Uma venda bem sucedida raramente é resultado apenas de marketing ou divulgação. Ela depende sobretudo de três decisões iniciais:
- Compreender o valor e o posicionamento real do imóvel
- Interpretar corretamente os dados e evidências do mercado
- Definir uma estratégia de preço e posicionamento compatível com a forma como o mercado poderá percecionar e valorizar a oferta
Quando estas decisões são tomadas com base em informação rigorosa, objetiva e devidamente contextualizada, todo o processo de venda tende a tornar-se mais previsível, seguro e eficiente. Não existe uma fórmula infalível, uma bola de cristal ou uma verdade absoluta sobre o valor de um imóvel. O que existe é a possibilidade de reduzir a incerteza através de dados, análise e fundamentação técnica, construindo uma perspetiva de valor e de preço mais defensável e melhor adaptada à realidade do mercado. Porque, no final, o objetivo não é ter razão sobre quanto vale um imóvel, mas tomar decisões mais informadas, mitigar riscos desnecessários e aumentar a probabilidade de alcançar o melhor resultado possível.
Quer compreender como o seu imóvel se posiciona no mercado?
Se está a considerar vender, uma das decisões mais importantes é perceber, de forma objetiva e fundamentada, como o seu imóvel se enquadra face às alternativas concorrentes e quais as implicações dessa posição na definição de valor e estratégia.
Conheça as abordagens que proponho e descubra se existe uma solução adequada às suas necessidades e objetivos.